Quando você faz um intercâmbio, sua vida “zera” no sentido profissional. Você, recém-formado, que trabalhava em um escritório com ar condicionado e cafézinho no Brasil e veio para Dublin para aprender inglês, uma realidade: você não é nada aqui no ponto de vista profissional. E, se você não tiver feito um caixa gordo para financiar toda sua estadia na Europa, não depender de mãe e pai para ter dinheiro (ou não querer que eles mandem), prepare-se para enfrentar o hardwork. Há varios tipos de sub-emprego em Dublin: cozinha, limpeza, coletar copos e sujeiras em pubs, vender jornal na rua, etc. Quando cheguei aqui e conversei com pessoas a respeito do assunto, várias delas comentavam sobre um em especial que muitos brasileiros vão: a limpeza da área em que ocorreu o Oxegen, eleito o melhor festival da Europa.

A edição desse ano ocorreu nos dias 8, 9 e 10 de Julho, contando com a presença de Black Eyed Peas, Foo Fighters, Coldplay, Arctic Monkeys e várias outras famosas atrações. É aquele típico festival em que as pessoas acampam e passam 3 dias por lá curtindo. O trabalho de limpeza estava disponível por 6 dias: 3 nos dias do evento e 3 para a limpeza do local no pós-evento. A opinião é unânime: é um trabalho extremamente duro e tenso. Apliquei para a vaga e fui contratado pela agência Adecco para trabalhar nos 3 dias do pós-evento, das 7h30 as 18h. O pagamento foi de 8.65 euros por hora, o mínimo aqui. Os escolhidos teriam que pegar um ônibus em frente ao Trinity College (e pagar 6 euros por dia por ele…) para irem até o local. O evento ocorreu em Punchestown, a uns 50km de Dublin. Uns 50 minutos de viagem. Enfim, fiz uma preparação física e psicológica, acordei às 4h50 e fui. Umas 100 pessoas estavam lá. 80% de brasileiros (novidade…) e mais uns paquistaneses, tailandeses, argentinos, poloneses e outros. O ônibus seguiu seu trajeto. A primeira visão que tive foi surpreendente: o local é imenso. É uma espécie de aras e a maioria das instalações do festival estavam lá. Palcos, tendas, lojas móveis. Vestígios de uma fantástica estrutura. Uma mini-cidade. De cara eu não vi nenhum lixo. Mas, quando o ônibus começou a contornar o local e chegou em uma determinada parte, a visão foi aterradora. Um mar de lixo a perder de vista. Todos no ônibus começaram a rir. Eu também ri (deveria ter chorado). Tenho certeza que você leitor ainda não conseguiu ter noção de como existe tanto lixo assim em um festival para que 100 pessoas passem dias limpando, e eu vos digo: a quantidade é colossal. Achei uma foto abaixo que dá para ter uma noção de como é.

Viu? Agora multiplique isso por 15, 20. É isso mesmo. Parece que não vai acabar. Desci do ônibus e já recebi um colete verde e um saco de lixo. Haviam equipes de várias cores. Colocamos as luvas e fomos em direção ao oceano de resíduos. Neste momento a visão foi ainda pior, já que caminhamos no meio dele e deu para ver que o trabalho seria árduo. Havia muitas áreas de camping e é óbvio que você deve imaginar a quantidade de porcaria que as pessoas deixam nesse local. Chegando ao local de início, fomos posicionados em fila em frente a uma primeira área completamente suja. Havia uns 6 supervisores. Irlandeses e poloneses. A ordem era seguir em linha catando o lixo que tinha na sua frente, sem atravessar a linha do colega ao lado. O Start foi dado e começamos a enfrentar o temível Job. Latas, garrafas, todo tipo de alimento, camisinhas, plásticos, vidros, pedaços de óculos e objetos pessoais, roupas, tênis e outras centenas de resíduos. É catar, catar e catar. Imagine abaixar por horas no sol escaldante (fez mais de 20 graus por aqui nesses dias que trabalhei) catando porcarias na grama e no barro, colocando no saco, enchendo o saco, amarrando o saco, pedindo outro e assim sucessivamente. Um ciclo que exige um bom físico mas, sobretudo, uma ótima preparação mental. Você passa o tempo INTEIRO escutando os supervisores gritando no seu ouvido. “C´mon guys, c´mon!!!!”, “Look at the small bits behind you!!!” “Hey, you missed this small bits here!”, “Side by side!, “Go ahead in your line!!”. Essas frases e outras ainda ecoam em minha mente. Abaixo, algumas fotos do “purgatório” (como alguns chamam, pois quem encara e aguenta tudo, consegue qualquer outro tipo de trabalho aqui). Na última eu estou ali no fundo.




Os supervisores ficavam atrás da nossa linha verificando se deixávamos algo para trás. E acredite, até por uma migalhinha do tamanho de uma formiga eles faziam você voltar e catar. Foram 3 breaks: 2 rápidos para tomar água e 1 para almoçar. Almoçar? Não, eles não deram almoço. Você tinha que levar e comer onde o serviço parou, ou seja, sentar na grama e no sol quente. Bóia-fria style. Improvisei uns sanduíches naturais e segurei bem. No primeiro dia foram 8h30 contadas de trabalho. O segundo dia foi mais difícil, já que acordei com dores nas costas e nas pernas. Trabalhei o meu mental ouvindo Gonna Fly Now, tema do Rocky Balboa, por várias vezes antes de chegar lá. A primeira abaixada foi complicada. Quase caí. Com o passar do tempo o cansaço vai fazendo você executar sua tarefa mecanicamente, como um zumbi. Chegou um momento que vi pessoas andando de joelhos para catar o lixo. Outros que não aguentavam e sentavam. Algumas jogaram a toalha não voltando depois do break ou não indo no outro dia. Mas eu resisti bem. A parte boa do trabalho era a animação dos brasileiros. Músicas, piadas e frases como “Tá vendo, vem pra Europa achando que tá abafando e estão aí catando lixo!”, “Saí do escritório com ar condicionado pra catar merda!”, “Ei, supervisor, vai tomar no…!” fizeram o tempo passar mais rápido. Tinha ouvido falar também que era possível achar várias coisas que os festeiros deixam no local como telefones, dinheiro e etc. O meu saldo foi até bom: um Rayban original (e caro) novinho e 7 euros. Vi um cara do meu lado achando 50 euros. Fiquei sabendo de pessoas que acharam 100, 200, 300 euros, Iphones e Blackberries. Enfim, quando a merda toda foi limpa todo mundo bateu palmas e os carrascos supervisores agradeceram a todos, dizendo que fizemos um brilhante trabalho. O que aprendi com isso? Muito. Não vou dizer que recomendo esse trabalho para ninguém. Cada um sabe do seu limite. Cada um sabe o que está disposto a enfrentar. Eu digo que foi um experiência que nunca mais vou esquecer. É uma experiência que faz você valorizar coisas que talvez não estavam no seu raio de visão pois, com certeza, a grande maioria dos que estavam ali tem uma certa comodidade, um suporte da família e passagem de volta garantida para voltar para casa. Além de muitas serem formadas. Eu faria tudo de novo e com um sorriso estampado no rosto. E chego a uma conclusão: depois disso não vou reclamar mais de nenhum trabalho que tiver. Independente se for em um escritório com cafézinho ou se for catando lixo ajoelhado. Os 2 são dignos da mesma maneira.
See ya!